sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Menina vermelha

Minha cor preferida não é o rosa. Minha boneca preferida nunca foi a Barbie e eu nunca fui fã de Sandy e Junior. Enquanto minhas colegas da mesma idade tinham coleção de bonecas com feições importadas, eu tinha mulheres recortadas de revistas Hermes e Avon e brincava tendo casa bem arrumada (com móveis tirados de catálogos de lojas), bom trabalho e um marido lindo (também de papel). Mas esse texto não é pra falar de brinquedos, mas sim de cores. É, cores.

Ratifico – o ROSA não é minha cor preferida. Já foi. Ou pelo menos eu quis muito que fosse. Me auto impus que eu era um menina-princesa-feminina-lady e que, portanto, minha cor preferida tinha de ser o rosa. Mas isso era quando eu não me conhecia. De fato, ainda não me conheço por completo e quem disser que se conhece dessa forma está, no mínimo, equivocado. Conhecer-se é um processo contínuo e perene. É um fluir constante, assim como a vida.

A parada é que hoje, minha cor preferida é o VERMELHO. Amanhã pode ser o amarelo ou o lilás, mas,  nesse momento, com toda a certeza, minha cor é o vermelho. Na verdade eu sempre gostei de vermelho, até sem me dá conta disso. Um dia, aos 19 anos, me surpreendi com a quantidade de calçados vermelhos que tinha (quando o convencional era optar pelos pretos). Vermelho é a cor da luta, da resistência. Vermelho é a cor da REVOLUÇÃO. O vermelho grita progresso, grita sangue, ideologia. O vermelho é vibrante.

Nos últimos dias, estudando sobre Feminismo (que vai além do que muita gente acha, mas não pretendo entrar nessa questão agora), vi que Rosa de Luxemburgo, economista, marxista, filósofa, uma das fundadoras do Partido Comunista Alemão e defensora apaixonada da LIBERDADE, era chamada por muitos de “Rosa, a vermelha”. Eu  achei aquilo tão legal. Decidi: definitivamente não sou nem quero ser rosa, sou vermelha!

O rosa, sempre trouxe o peso da simbologia da meiguice, da delicadeza, da feminilidade. Mas traz também, inerentemente, a simbologia da subordinação, da opressão, da imposição de papeis sociais, sofridas pela mulher historicamente. Coitado do rosa, não tô querendo fazer dele um vilão, nem pregar para as mulheres que não gostem dele. Mas, pra mim, o vermelho que é a cor da mulher. Até cor Primária é (lembra das aulas de Arte da escola?), o rosa deriva-se dele. Vermelho é força. Pintou as revoluções e estas pintam o nosso coração de vermelho também, num movimento dialético e sublime.  Como diz a canção: “tudo é garantido após o sol vermelhecer”. Acho que mesmo a esperança nem verde é. É vermelha.

Pronto, tá documentado: minha cor preferida é o vermelho. Além do mais, loiras ficam ótimas com essa cor. ;)






sexta-feira, 26 de abril de 2013

Todas as nossas Marias

Era só mais uma sexta-feira para Maria. Uma sexta-feira trivialmente leve, com cores e cheiros de sextas-feiras. Mas aí uma vontade incontrolável cai sobre Maria. Na verdade, era desejo e desejo é a vontade de não se controlar. E a sexta-feira muda o rumo, muda a cor. 

Maria foi rever seu antigo caso. Assim como todas as sextas-feiras, todas as mulheres são um pouco iguais. Todas têm, em algum momento da vida, um caso antigo do passado sempre muito presente. As Marias e as sextas-feiras são mesmo todas iguais... 

Como sempre, ele a pega em sua casa. Como sempre, Maria se atrasa para descer e o faz esperar. Todas as Marias se atrasam para um reencontro de amor. Como sempre, Maria entra no carro dizendo “e aí?” e, como sempre, o caso-presente-do-passado responde “tá tudo bem contigo?”. Maria tem certa dificuldade em ser amorosa e emotiva com ele e no fundo sabe que é uma espécie de autodefesa. Ou não. Sei lá. Todas as Marias, em algum momento, não se entendem muito bem. Eles param para comprar gelo. É costume beberem alguma coisa nos seus reencontros. E Maria gosta da ideia porque está deveras nervosa e pensa que a bebida deixará menos pesada sua alma. Todas as Marias, em algum momento, precisam de um drink bem forte para aguentarem uma emoção idem. Maria olhava disfarçadamente para ele durante o caminho. Fazia uns meses que não o via e queria prestar atenção nele, ver se era o mesmo. Olhava sua roupa (sempre básica),seu cabelo (grisalho), as mãos (tão bonitas). Maria pensava coisas, lembrava coisas e ria de canto. Ele perguntava o que era e Maria dizia que não era nada. Mas era tudo. Um turbilhão de pensamentos e emoções dentro de uma Maria tão pequena. 

Eles chegam no local. Era tarde ainda. O quarto estava claro, claríssimo. Não esperam nada, fazem amor vorazmente, como se fosse a última vez. E de fato era, Maria já sentia. Todas as Marias, em algum momento, sentem essas coisas. Foi rápido. E não foi como era de costume. Maria sentia que tava diferente. Enquanto ele cochilava do seu lado, ela o olhava. Um cinema existia dentro de Maria naquele momento. Um filme saudosista, dramático. Daqueles que todas as Marias choram. E Maria chorou. Chorou olhando pra ele, sem roupa, naquela cama. Chorou de tanta saudade que estava, chorou porque sabia que ele nunca foi dela, chorou porque ela era tão dele, que se desprendia de si mesmo. Chorou pela certeza do fim de algo que nunca efetivamente começou. Chorou pela certeza plena que aquilo tudo iria passar. Chorou porque nunca soube lidar com o fato de querer tanto alguém. Logo Maria, tão desprendida, tão solta, tão marrenta. Maria chorou, porque amor demais sempre acaba transbordando em lágrimas gordas. 

Ela sai pro banheiro para limpar o rosto. Precisava manter sua fama de má. Ele vai fazer os drinks e então conversam por muito tempo. Maria tinha prometido para si mesma que não faria DR’s, que não cobraria nada, que não perguntaria sobre sua namorada atual, que não seria melodramática. Todas as Marias, em algum momento, teimam em fazer promessas que não podem cumprir. Maria sempre achava um jeito de perguntar, nas entrelinhas, o porquê de ele não ter querido tanto ela, como ela o queria. Metia umas roupinhas sujas pra lavar, bem no meio de um riso sobre alguma coisa que debatiam. Maria sabia que ele não era culpado por nada – “mea culpa”. Ele não era de iludir, de fazer promessas. Nem ela era de se iludir. Mas todas as Marias, em algum momento, se perdem de si. Ela alimentou seu amor sozinha. Como só o dono alimenta seu animal de estimação exótico. 

Maria, pela segunda vez, percebe que chegou ao final. Não teve fim ainda, para ela, mas chegou ao final. E aconteceu o que ela não queria – ela chora, sem ligar pra disfarces. Perde a pose de durona. Desmorona. Todas as Marias, em algum momento, sempre soltam a corda do cabo de guerra. Ele não diz nada. Olha pro chão. Maria que o acalma, vejam só – “Não te preocupa, isso é bobagem minha. Vai passar. Nem sei porque tô chorando assim.” E tenta um riso. Em vão. Sua alma estava cinza. Seu coração, uma bola de chumbo. 

Maria joga um pouco de sua ironia sobre o relacionamento dele, como que desdenhasse. Todas as Marias, em algum momento, desfazem da atual, querendo intimamente, seu lugar. Até porque, Maria nem “EX” era. Maria tinha a convicção de que foi um “lance”. E essa dor era escura. E esse contraste era amargo. E essa sinestesia era dura – ele era o amor de Maria. Ela era o quê para ele? Todas as Marias terminam, em algum momento, dando bem mais que o recebido. 

Maria vai vestindo sua roupa e as lágrimas – teimosas- caindo feito cachoeira de mata virgem. Começa a tocar uma música daquelas bem filha da puta, daquelas que arrastam o coração da gente no chão: “I can’t take my eyes off of you...” Ele chega perto dela, fasta o cabelo, beija sua nuca e canta em seu ouvido “I can’t take my eyes off of you...”. Maria fecha os olhos. Todas as Marias, em algum momento, sempre fecham os olhos quando a dor não cabe no peito. Maria acha o momento tristemente lindo. 

Eles vão embora sem falar mais nada. O caminho parece mais longo. Ele pede para ela o convidar para sua formatura e ela acha isso até legalzinho. Quando chegam na porta da casa, eles se olham e se beijam de forma singela, terna. Um selinho demorado, com força. Um beijo de despedida tinha um gosto que Maria não sabia bem explicar. Um gosto de Judas misturado à um gosto de príncipe acordando a princesa. É, a princesa estava mesmo acordando. Se dando conta que nunca deu certo e nunca iria dar. Se dando conta que nunca poderiam mesmo ter tido nada a mais que um “lance” porque, para querer ter algo com uma pessoa, é preciso ADMIRA-LA. É premissa fundamental. E Maria sabia que ele não a admirava o bastante. Maria sabia que eles eram de mundos tão diferentes e distantes. Maria sabia que nada dá certo começando errado. E começou. Ele com uma imagem pré-estabelecida erroneamente sobre ela. Ela carente e com expectativas naquele cara dos seus sonhos. Todas as Marias, em algum momento, caem na real. 

E Maria subiu. E chorou. E se deu conta que era o fim, pela terceira vez naquela sexta-feira. Já era noite, no mundo exterior e no mundo interior de Maria. Maria estava de luto. Luto por ter que desistir do seu amor, seu único amor. E Maria chorou até cair no sono. Todas as Marias, em algum momento sempre choram até dormir e acordam de ressaca. Maria só despertou quando já não era mais sexta-feira. E nada era mais igual. Nem o dia, nem Maria.




                                                                                                    




domingo, 7 de abril de 2013

O mesmo do mesmo

Não sei vocês, mas eu ando com preguiça da maioria das pessoas que conheço por aí, nas baladas. Todas tão iguais. Todas num uniforme, todas com a mesma bebida no copo e com as mesmas ideias na cabeça (o copo,geralmente,está mais cheio).
Todas tem discursos e gestos coreografados e a gente sempre volta pra casa totalmente cheio de sentir vazio. Algumas até chamam a nossa atenção, mas não conseguem nos manter interessados. Muito artificiais, muito rasos, muito clichês. Daí eu parei pra pensar que talvez eu estivesse indo nos lugares errados. Um amigo me disse: "Paty, o caras legais e as minas legais, não estão nessas baladas raladas que todo mundo vai expor sua mesmice. Essas pessoas estão em casa, pensando que nem você."
Eu até concordo com meu amigo, mas se é assim, o que a gente tem que fazer? Ficar esperando Deus mandar cair bem na nossa frente uma pessoa interessante? Ou bater nas portas das pessoas:

- Toc,toc. Ei,tem algum cara legal aí?

Na verdade,é que nem diz Caetano: "tudo é muito mais..." E é vida que segue! Um dia a gente acha, não nossa outra metade,mas um outro inteiro que nos complete. Para isso, é bom deixar a casa (nós) sempre em ordem pras nossas visitas. Deixar os espaços devidamente desocupados e limpos. E um tapetinho de boas-vindas na entrada do coração não é nada mal. Todo mundo gosta de lugar aconchegante, arrumado e quentinho. É em lugares (gente) assim que se faz parada.






sexta-feira, 8 de março de 2013

Ao Dia da Mulher


Eu nasci numa família de mulheres. Uma mãe, dez filhas. Hoje, uma trabalhadora rural aposentada, sete professoras, três estudantes . Mães, esposas, trabalhadoras, visionárias. Lá em casa, desde cedo, eu aprendi que ser mulher é sinônimo de ser FORTE. 

Olhando a História, vendo o quanto a mulher conquistou (à duras , duríssimas penas) e vendo nossa luta ainda cotidiana contra essa opressão enraizada, contra esse machismo inerente, contra essa cultura patriarcal, me encho de orgulho do meu gênero e condição. Somos feitas de lutas...diárias...perenes. 

Diante de tanta batalha, não consigo conceber certas posturas ainda sustentadas pelos homens e pelas próprias mulheres. É mesquinho demais uma mulher brigar em público por causa de um homem. É inadmissível um cara ter a plena certeza que se comprar o carro do ano, vai conseguir qualquer mulher que ele queira. É trágico a mulher ainda educar seus filhos com ideias do tipo: “homem não chora”, “homem não leva desaforo pra casa”, ”homenzinho pode ter mais de uma namorada”. A gente não se atenta que agindo assim, somos vilãs de nós mesmas. A gente não se atenta que nós mesmas a vezes no colocamos na posição de COISA. E quem é coisa tem um dono e quem é dono faz o que quer... 

A carga cultural, religiosa, histórica que carregamos é pesada e ainda muito viva. E como lutar contra a opressão, se nós mesmos somos machistas em muitos casos? Quando se julga uma outra mulher pelas roupas que ela veste ou pelo número de caras que ela foi pra cama, estamos fazendo apologia ao machismo, à discriminação, à coisificação que tanto somos vítimas todos os dias. 

Que esse 8 de março seja dia de rever conceitos, reformar valores, reinventar posturas. Que não seja mais um dia de manutenção de ideologias arcaicas, mas de esclarecimento. Talvez esteja sendo utópica, mas utopia é como uma ilha quando se está perdido no meio do mar – ela nos nos incentiva a não desistir. 

Aqui minha reverência a todas as mulheres em suas singularidades. Da quebradeira de coco do interior do Maranhão até a presidentA, chefA maior de uma nação. 

Parabéns Mulheres! Nossa essência é luta! 



Créditos: à Lara Spognal pela inspiração, às mulheres da Família Carlos pela motivação.


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Saberes


Ele não sabe que minha música preferida é do Gonzaguinha, nem que sou louca pelo Caetano. Não sabe que suspiro ouvindo “Um amor puro”, do Djavan, não sabe que sou  encantada pelo Pequeno Príncipe, nem que meu personagem de tirinhas preferido é o Calvin...Ele não sabe que tenho alergia a sulfa, que tive catapora depois de grande. Ele nem imagina que tenho medo de altura e que gosto mais de salgados que de doces. Não faz ideia que tive uma paixão platônica pelo Capitão Rodrigo, do Érico Veríssimo e que chorei soluçando lendo “Meu pé de laranja lima”. Ele não sabe que adoro  vermelho e que breve publicarei um livro. Não sabe que sou filiada à um partido político, nem que fui morena por dois meses há alguns anos. Nem sabe que prefiro o Chico Buarque compositor que o Chico cantor e não sabe que canto sempre as mesmas músicas no chuveiro. Ele não sabe que sonho casar no religioso, no campo, com buquê de flor de açucena.

Depois de um ano, ele não sabe do meu tremendo medo da solidão nem que eu nunca andei de avião. Desconhece que já ganhei medalha de aluna modelo do colégio na sexta série e que tenho um irmão só por parte de pai. Não sabe que tenho dois afilhados nem que vez ou outra sonho em trabalhar na TV.  

Se bobear, ele nem reparou que tenho vício de roer unhas! Talvez nem reparou que sou míope ao extremo e que amo salto alto, nem que apeteço um dia ter uma foto minha e dele no mural do meu quarto.
Mas ele sabe ser o que me fascina. Sabe ser meu sem nunca ter sido, sabe inebriar e fazer delirar. Sabe fazer eu saber que nenhum me marcou assim e que nenhum me manteve tão boboca assim por tanto tempo. Só que sabe magoar também... até sem querer sabe.

Sabe, ele sequer sonha que meu maior sonho era ele nunca saber me esquecer....


sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Minha estante velha


Cresci numa casa de professoras. E,não por acaso,numa casa cheia de livros por todos os cantos (benza Deus!). Morava numa casa com mais seis irmãs e a diferença de idade de mim para a irmã seguinte é de quase 4 anos,portanto sempre fui mais a solitária. Brincava sozinha,mas nem me importava com isso,porque as vezes as outras crianças não conseguiam mesmo entender nem acompanhar aquele mundo tão grande e fantasioso que eu trazia dentro de mim. Pra aumentar ainda mais a minha solidão, minhas irmãs ou trabalhavam ou estudavam e eu ficava sempre sozinha em casa em algum momento do dia. A solidão me foi deveras importante. Ela me serviu de bússola de mim mesma...
A combinação entre solidão e livros é linda,pode crer! Lembro da estante de madeira (ainda viva) que se quardava os livros da casa. A maioria eram didáticos, de Português (porque a maioria de minhas irmãs são formadas em Letras e professoras de Língua Portuguesa) e eu dorava ficar procurando tirinhas,narrativas,poemas,crônicas nesses livros. As vezes até decorava trechos ou anotava em algum caderno alguma parte que tocava minha alma derretida. Tinha também nessa estante os livros católicos (porque minha família sempre foi católica e engajada em pastorais e grupos eclesiais da igreja),alguns de hinos,outros de dinâmicas de grupo,outros de catecismo. Não posso esquecer da coleção da revista Mundo Jovem, que tínhamos assinatura e que trazia sempre temas atuais com uma linguagem meio religiosa e muito crítica. E claro, tinha os livros de historinhas, os romances, as biografias, as coletâneas de poemas, os de auto-ajuda e alguns clássicos da literatura nacional,"surrupiados" de bibliotecas mundo a fora (não façam isso! RS). As vezes eu inventava de ir limpar tal estante, só pra ter a desculpa de ficar lá, em meu momento de desbravadora. E ficara horas "viajando" em páginas velhas e amareladas ou novinhas e cheirosas. A estante velha de madeira da minha casa em Lago da Pedra era um mundo à parte pra mim. Como aquele cantinho aguçava meu lado inerentemente sonhadora de ser...
Dentre os tantos achados em MINHA estante velha,um me faz lembrar com mais carinho. Foi o dia em que encontrei um livro fininho,azul,com nuvens na capa e que falava de perdão. Era um livro comprido,de caráter religioso e eu o achei bonito. O prefácio do livro,veja que maravilha, era um texto que falava de AMOR. Um livro sobre perdão que começava falando de amor. Ali já vi o quão substancial me seria aquela leitura,porque amor e perdão são,de fato,um só...
Sabe,perdoar é tarefa difícil, requer grandeza e altruísmo. Pede de ti uma leveza e uma doçura na alma, que não condiz o que aprendemos nesse mundo de cão. E por isso mesmo,quantas vezes fingimos perdoar...mas fica ali aquela agulhinha de mágoa que nos espeta vez ou outra e ate nos faz sangrar. E ainda tem essa pedagogia do "não preciso adular ninguém" ,que a contemporaneidade de egoísmo-civilizado prega. Nos é imposto que não precisamos pedir tanta desculpas assim,porque somos independentes e polivalentes e coisa e tal. Mas a gente sabe que o vazio deixado por uma pessoa que a gente quer bem é impreenchível... É oco,é escuro e tem gosto de fel. O mundo moderno talvez perdoe menos,porque desaprendeu a amar. E desaprendeu a amar porque não quer perdoar. E não quer perdoar porque o fetichismo que o sistema provoca nos afasta do sagrado e do divino...
O texto do prefácio do livro que achei na estante da minha casa era de Martin Luther King, um mártir na luta pela justiça racial e pregador incansável do amor entre as gentes. Falava das três palavras que o Velho Testamento Grego trás para "AMOR" - eros,philos e ágape. E tenho viva na minha mente a explicação que ele dava à palavra ÁGAPE: " ...é boa vontade ativa e redentora para com todos os homens. Os Teólogos diriam que é o amor de Deus agindo no coração humano. Ágape é uma espécie de amor desinteressado, supremo. Era à esse tipo de amor que Jesus se referia quando pregava "AMAI OS VOSSOS INIMIGOS" e dou graças por Ele não ter dito "gostai de vossos inimigos"! Porque gostar é uma emoção afetiva e eu não posso gostar de que me bombardeia a casa,eu não posso gostar de quem tenta espezinhar-me com injustiças,mas tenho que amar e perdoar,porque Deus o ama e porque somos todos irmãos..." 
Claro que as palavras não eram exatamente essas,mas chegam muito perto. Essa mensagem entrou em mim e la tem lugar cativo. Sempre que me deparo com alguma dessas pessoas amargas e cinzas que a vida nos apresenta, eu lembro de tudo isso...lembro das palavra do Velho Testamento Grego citada por Luthet King no livrinho azul.

Quem diria que uma estante velha de madeira carregaria um exercício de vida num livrinho fininho e modesto de capa da cor do céu...


e o antídoto é sempre o amor...

 


terça-feira, 23 de outubro de 2012

Agora eu sou Imortal - Discurso da noite de Diplomação da ALLA



Boa noite a todos, autoridades, representantes e povo de Lago da Pedra. Minha saudação a todos vocês que muitos nos horam com suas presenças.

A priori, gostaria de dizer que não esperem de meu discurso, palavras rebuscadas, eruditas e eloquentes. Meu jeito de escrever é bem à minha maneira: simples, clara e até meio cabocla. Não esperem também formalidades e cumprimento fiel à regras. Na verdade nunca me dei muito bem com protocolos...rs

Começo aqui minha fala, nesta noite, parafraseando Clarice Lispector: “felicidade é pouco! O que eu estou sentindo ainda não tem nome.” Agradeço de coração e de alma pelo convite a mim concedido. Sinto-me deveras lisonjeada em fazer parte deste capítulo tão insigne na história de minha cidade. Confesso que cheguei a me questionar se seria mesmo eu digna e merecedora de tão honrosa missão.

Hoje é um dia de festa. Para mim, tenho certeza que também para os demais membros e, claro, para Lago da Pedra. Essa Academia representa um passo gigantesco rumo a valorização da cultura de nossa gente. E cultura, convenhamos, é alimento para a alma... e nossa alma está faminta.

Deem-me então licença para me apresentar. Sou Patrícia Carlos, filha legítima dessa terra, mas que hoje está “uma cajuína cristalina em Teresina”. Sou uma sonhadora e nas horas vagas, sou estudante de Bacharelado em Serviço Social. Sou filha de trabalhadores rurais e imã de professoras. Vim de uma família de mulheres de fibra e de garra e de sonhos. Cresci num meio bastante propício para me tornar uma dessas “meninas de asas”. Cresci rodeada de gente que me engrandeceram como pessoa. Jovens da pastoral da Juventude, professores, militantes políticos de esquerda...todos mergulhados em um espírito de revolução e de intelectualidade interiorana. Por isso, sempre fui aquela menina curiosa, ”perguntadeira”, precoce. E a culpa era do meio e dos LIVROS! Ah, os livros...sempre me fascinaram, sempre viajei com eles, sempre me embriaguei das palavras.

Lembro que minha irmã Isabel fez um livrinho quando estudava o magistério que contava a história de uma gota d’água de poça que sonhava em ser gota do mar. Um dia uma enchente realizou o sonho da gotinha e ela foi ser mar...naquela imensidão misteriosa e fascinante. Ela dedicou o livrinho à mim. Hoje eu vejo que aquela gota d’água visionária, sonhadora e até pretenciosa era mesmo eu... Lembro também que Claudicélio Rodrigues, nosso ilustre conterrâneo escritor, hoje Dr. Em letras e cidadão carioca, me deu de presente um livro, quando era ainda bem pequena, de título “A menina das bolhinhas de sabão”. Contava a história de uma garotinha solitária que um dia percebeu que podia viajar dentro das bolhinhas de sabão que fazia da janela de seu quarto. E conhecia terras distantes, personagens mirabolantes, tudo sem sair de sua casa. Hoje eu também vejo que aquela menina Ana Maria também tinha muito de mim...

Fui crescendo então, amante dos livros, das artes, viajando sem sair do lugar. Hoje tenho textos escritos, crônicas, contos. Tenho um Blog por nome Suave Veneno onde publico alguns deles e estou a finalizar um romance sobre uma mulher nordestina, que breve deverá ser publicado.

Enfim, encerro aqui minhas palavras da mesma forma que comeci – agradecendo. Obrigada à minha família, que me deu toda a base e que é meu alicerce, obrigada aos meus amigos, que sempre me dão tanta força e carinho, obrigada aos meus professores – os de agora e os de antes - a quem eu tanto admiro e quero bem e respeito. Deixo aqui meu compromisso com esse projeto hoje iniciado. À Academia, digo: prometo honrar minha cadeira e dedicar-me de todo. E à minha Lago da Pedra, digo: “verás que um filho teu não foge à luta...”



Muito obrigada!



Patrícia Carlos