quinta-feira, 22 de maio de 2014

Capítulo 01

Maria do Céu

Era uma tarde de novembro. O céu estava alaranjado, o sol quase indo se deitar. Maria do Céu estava sentada numa cadeira velha, no alpendre de sua casa, olhando o nada. Na verdade, quando Maria olhava o nada, ela estava, de certo, olhando tudo. Porque Maria era daquelas que viajava em pensamentos, que sonhava acordada, que desenhava nas nuvens, que criava cenas e diálogos dentro de si. Se algum pintor visse aquela cena, certamente iria querer retratá-la, porque Maria estava bela, aliás, Maria estava graciosa, porque bela, muitas são, mas ter a graça que aquela caboclinha tinha, não era tão comum. Beleza é menos substancial que graça. Até o anjo disse à outra Maria: “Ave cheia de graça!” e não “Ave cheia de beleza”. E Maria era mesmo graciosa por excelência. Estatura mediana, pele clara, olhos amarelados e cabelos ondulados, castanhos, longos, já chegando à cintura. Seus olhos eram grandes, expressivos, atentos e ao mesmo tempo distantes. Tinham um certo mistério, uma certa magia. Uma réstia de sol iluminava seu rosto, fazendo os cabelos ficarem como da cor de mel silvestre. Ela olhava o horizonte, sabendo haver muita coisa depois.
Maria volta a si com o grito de sua mãe:

- Maria do Céu!

-Senhora, mãe?

- Vem aqui ajudar na janta menina! Para de ficar aí feito estauta, olhando pro nada. Um dia ainda te dou uns tapa, pra largar de ser avoada.

Dona Francisca não entendia que Maria levava um mundo a parte dentro de si. Não entendia suas “viagens”, seus devaneios, suas flutuações. Dona Francisca era prática, a vida dura lhe ensinara a ser assim. E era uma mulher de muita fibra, forçadamente forte, hiperativa. Resolvia tudo muito rápido, nunca estava parada. Cuidava da casa e da família com mãos de ferro. E amava tudo aquilo, mas à maneira dela – bruta, simples e até meio fria. Mesmo mal cuidada e gasta pela vida dura, era mulher bonita. Cheia de curvas, cabelos longos e negros, rosto marcado pelo tempo cruel, mas que conservava um ar de santa de igreja do interior. Não era mulher de melosidades nem de esperas. Ia lá e fazia. E a verdade é que Dona Francisca segurava aquela família. Ela era o porto seguro. Tinha pulso, tinha sangue corrente, tinha gana. E nisso Maria saiu á ela, com a diferença que Maria era inteira tecida de sonhos, era visionária - nisso saiu ao pai.
Da panela em cima do fogão de barro saia um cheiro gostoso de fava fresca e a outra boca também estava acesa aguardando o complemento do jantar.
- Vá catar o arroz, Maria. Minha fia, se avie pro mundo! Já te falei tantas vez  que gente desaluída fica no mei da estrada. Se atente, Maria do Céu, se apulume!
- Mãe não sabe nada de mim, do que penso. Aliás, a senhora quer eu seja  que nem essas meninas daqui, tudo abestada. Casar, ter um monte de filho, se acabar de trabalhar, cuidar da casa, dos meninos, do caba ruim que ela arrumou. Eu não! Quando eu tô parada, mãe, eu tô sonhando. ..Sou mais apulumada do que mãe pensa.

-Hum...  sonhando...hen-heim...

- Cadê papai? Nunca chegou?

Maria perguntava, enquanto estava de cabeça baixa, sentada num tamborete feito de couro de animal, com o quibane de arroz nas pernas.

- Nam. Tu num sabe como é Ferreira? Insegueirado com terra. Tá lá olhando os pé de maxixe. Inté penso as veiz que ele gosta mais do sítio do que de mim.

Maria rir baixinho.

- Mãe tá com ciúme de uma terra? Ele lhe quer bem demais...todo mundo ver.

Dona Francisca fica meio encabulada, deixa sair um risinho de lado, escapulindo. Um riso de orgulho e de amor recíproco. Ela sabia sim que era muito amada por aquele velho.
Maria termina com o quibane de arroz e se volta para a janela. Sua casa era um sítio modesto, afastado da pequena cidade. Tinha muitas árvores ao redor. Pé de muita coisa, galinhas e capotes sempre passeando pelo quintal. Uma horta pequena e caprichosa que Dona Francisca cuidava com muito zelo e um curral bem pequeno, onde seu Ferreira criava umas cinco rezes. Ela começa a pensar de novo, na mesma coisa que pensava quando ainda estava lá no alpendre. A mesma coisa que pensava todos os dias: o MAR. Maria do Céu, era, antes de tudo, Maria do Mar.
Ela era fascinada pelo mar desde muito pequena. Quando o mar se mostrava na TV, Maria paralisava. Fica inebriada. Ela achava o mar a coisa mais linda do mundo. Aquela imensidão, aquele mistério. O mar lhe causava certo medo, mas o medo lhe causava curiosidade. Ela ficava a imaginar seu encontro com o mar. Pensava no gosto do mar, no cheiro do mar, na cor do mar, no som do mar, na textura do mar. Maria sonhava em sentir o mar de forma total. Se juntarem, se fundirem, como num só. Ela gostava de pensar que havia um reino encantando lá nas profundezas. Com tudo que reino encantado tinha direito: princesas sereias, duendes marítimos, reis, bruxas, plantas que falam, bichinhos de todas as feições. E ela era a rainha que todos estavam aguardando chegar. Maria do Céu sonhava em ser Maria, a rainha do mar...
Não sabia explicar como tinha começado esse fascínio. Só lembrava que quando ainda era muito criança viu o mar na televisão 24 polegadas da sala de sua casa. Não parou de olhar, nem piscava. Era a cena de uma novela. O casal de mocinhos felizes e correndo, à beira daquele mundo de água que não parava de mexer e fazer barulho. Depois disso, Seu Ferreira e Dona Francisca tiveram que se informar muito, porque Maria era só perguntas sobre o mar. No seu aniversário de 7 anos, ganhou uma boneca de pano bem mimosa da mãe. Ela tinha os olhos clarinhos e cabelos longos que nem Maria e tinha cheirinho de alecrim. Seus olhinhos brilharam, mas todo o encanto foi transferido para o presente do pai. Seu Ferreira trouxera uma concha.

- Bota no ouvido, fia, assim. Tá escutando? É a zoada do mar. Pai trouxe um poquim de mar pra minha fia.

Maria estava num estado de encantamento indizível. Ela fechou os olhinhos e se imaginou pela primeira vez no reino perdido do mar que povoou seus sonhos todas as noites depois daquele dia. O pai sorri contente ao ver que agradou a filha. Maria, num gesto de profundo agradecimento, abraçou a perna do pai, que lhe beijou os cabelos de mel.

E muitas outras conchas vieram depois. O quarto tinha uma coleção delas. Quartinho simples, mas bem arrumado, caprichoso. Os móveis feitos pelo pai, os fuxicos e bonecas de pano feitos pela mãe. Uma estante só de livros, outra só de conchas. As janelas pintadas de verde clarinho. Maria do Céu era filha única - coisa atípica no interior no nordeste. Mas ela não era Maria do Céu a toa. Foi promessa para Nossa Senhora. Dona Francisca teve gravidez arriscada, os sustos foram muitos, se apegaram na fé. Devota de Maria, a sertaneja implorou, com olhos marejados, olhando para santa, num altar cativo da casa, que se a filha vingasse, homenagearia e serviria à Rainha do Céu. Nessa altura ela já sentia, sem saber explicar, que carregava uma menina. E Maria veio rosada e pequena, sadia e perfeita. Se tornou a alegria da casa. Os pais lhe davam e faziam tudo o que estava ao alcance. O que era deveras pouco e limitado. Dois caboclos, sem estudo e com muita fé. 

domingo, 22 de setembro de 2013

A turma


Biel é um cara bem legal. Quase nunca desgosta de alguma coisa. Só não gosta mesmo de solidão e café frio, o resto ele releva tudo. Biel tem uma turma de amigos, que quando junta, todo mundo parece que tá na lua. Porque todo mundo fica sem gravidade, fica flutuando. Nada tem gravidade nos encontros da turma. Nada é grave também. Ser avoado por gosto e vocação, lá na turma todo mundo sabe ser. Quer saber?

A Ana é uma menina que gosta de laço de fita azul na cabeça. Ana diz que não gosta de heróis que voam. Prefere os que sabem voar. Ana acha que seu pai sim, é um super-homem. Todos os dias ele ensina Ana a voar.

Malu é uma menina que ama a madrugada. Ela acha a madrugada poética. Só dorme depois que o sol aparece, pra não perder nem um tempinho da dança que a escuridão e o silêncio fazem dentro dela. Ela diz que o dia é cheio de trivialidades e boboquices de humanos robôs. A madrugada é mais fiel e mais leal que o dia. A madrugada é mais dela que dia. O dia é de todo mundo. De toda essa gente igual. Malu nem se importava quando a chamavam de pretensiosa  quando ela dizia que a madrugada era dela. "Maludrugada", ela dizia.

Raí tem carro da hora e cabelo com gel. Só a vaidade dele é maior que sua casa. Nenhuma outra coisa é. Uma mansão, com muro alto. Mas Raí prefere a casa com cerca baixa do Biel. Ele tem palácio, mas tem não abraço. Para ele, comer pipoca e rolar de rir no sofá velho do Biel, é bem mais legal que jantar granfino, com prato enfeitado e gente ensaiada.

E tem o Beto, o menino do cabelo enroladinho. Beto tem um violão e voz mansa. Sonha em cantar na lua. Fala de astros e é fã do Caetano. Tem plantação no quintal de casa, mas não é horta nem pomar. Vive numa camisa do Guevara e beija sempre na testa. Sonha com revolução, blues e Fumaça verde.

Biel só é professor de matemática até quinta. Sexta a domingo, ele é anfitrião daquela turma, que de tão chegada, nunca se vai. Sempre fica pela casa. Fica o cheiro, as cinzas, os cascos vazios, os discos, o violão extra do Beto, uma fita da Ana pelo chão. E fica o bem-querer. Pela casa toda. Exalando. Cheirinho de amor é coisa boa sentir...

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Tudo é bom, João

Um herói negro vai invadir o oriente, João. E, com morte, vai salvar muitas vidas. Porque ele é bom, João.

Um sistema perfeito oprime as pessoas. O desemprego se agiganta. Porque o sistema é bom, sabe, João?

O conselhos dos deuses não quer deixar que anjos de além da fronteira salvem vidas na batalha do campo verde amarelo. Só deuses de casa fazem milagres, João! Mas só quando querem. E com táxi aéreo. Tudo é corporação. Vida longa ao mercenarismo. Mas os deuses brancos são bons, viu, João.

A mulher é violentada e oprimida e assassinada, João. Pelo Senhor, Alfa. A regra é clara, Arnaldo e João: ele manda, ela obedece. Se violentada foi, João, é porque foi culpada. E se marcada foi, João, é porque mereceu. Porque o macho é bom, João. O ismo mais ainda. 

Tem criança com buraco na barriga. Tem de bala e tem de fome, qual você prefere, João? Ah, dar um lanche pra um mendigo e postar na caixa mágica. Está certo, João, você é bom. 

Tem gente colorida que ofende os preto e branco, João. Gente que rouba em cima de um altar não ofende nem assusta. Não te meta com um ungido, João! E aprenda, João, nada tem contexto, nada. Nem aquele livro grande de letra miúda. O mal do século nem é stress, João. É interpretação nua de crítica. 

Muita coisa tem sumido dessa bola azul, João. Cadê o “se importar”, João? Cadê a honestidade? E a abundância, João, cadê? Cadê os assustamento das gentes, João? Tudo é normal? Tudo é comum? Cadê a educação política hem, João? Aliás, João, você viu o Amarildo por aí? Acho que  ele era bom...

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Menina vermelha

Minha cor preferida não é o rosa. Minha boneca preferida nunca foi a Barbie e eu nunca fui fã de Sandy e Junior. Enquanto minhas colegas da mesma idade tinham coleção de bonecas com feições importadas, eu tinha mulheres recortadas de revistas Hermes e Avon e brincava tendo casa bem arrumada (com móveis tirados de catálogos de lojas), bom trabalho e um marido lindo (também de papel). Mas esse texto não é pra falar de brinquedos, mas sim de cores. É, cores.

Ratifico – o ROSA não é minha cor preferida. Já foi. Ou pelo menos eu quis muito que fosse. Me auto impus que eu era um menina-princesa-feminina-lady e que, portanto, minha cor preferida tinha de ser o rosa. Mas isso era quando eu não me conhecia. De fato, ainda não me conheço por completo e quem disser que se conhece dessa forma está, no mínimo, equivocado. Conhecer-se é um processo contínuo e perene. É um fluir constante, assim como a vida.

A parada é que hoje, minha cor preferida é o VERMELHO. Amanhã pode ser o amarelo ou o lilás, mas,  nesse momento, com toda a certeza, minha cor é o vermelho. Na verdade eu sempre gostei de vermelho, até sem me dá conta disso. Um dia, aos 19 anos, me surpreendi com a quantidade de calçados vermelhos que tinha (quando o convencional era optar pelos pretos). Vermelho é a cor da luta, da resistência. Vermelho é a cor da REVOLUÇÃO. O vermelho grita progresso, grita sangue, ideologia. O vermelho é vibrante.

Nos últimos dias, estudando sobre Feminismo (que vai além do que muita gente acha, mas não pretendo entrar nessa questão agora), vi que Rosa de Luxemburgo, economista, marxista, filósofa, uma das fundadoras do Partido Comunista Alemão e defensora apaixonada da LIBERDADE, era chamada por muitos de “Rosa, a vermelha”. Eu  achei aquilo tão legal. Decidi: definitivamente não sou nem quero ser rosa, sou vermelha!

O rosa, sempre trouxe o peso da simbologia da meiguice, da delicadeza, da feminilidade. Mas traz também, inerentemente, a simbologia da subordinação, da opressão, da imposição de papeis sociais, sofridas pela mulher historicamente. Coitado do rosa, não tô querendo fazer dele um vilão, nem pregar para as mulheres que não gostem dele. Mas, pra mim, o vermelho que é a cor da mulher. Até cor Primária é (lembra das aulas de Arte da escola?), o rosa deriva-se dele. Vermelho é força. Pintou as revoluções e estas pintam o nosso coração de vermelho também, num movimento dialético e sublime.  Como diz a canção: “tudo é garantido após o sol vermelhecer”. Acho que mesmo a esperança nem verde é. É vermelha.

Pronto, tá documentado: minha cor preferida é o vermelho. Além do mais, loiras ficam ótimas com essa cor. ;)






sexta-feira, 26 de abril de 2013

Todas as nossas Marias

Era só mais uma sexta-feira para Maria. Uma sexta-feira trivialmente leve, com cores e cheiros de sextas-feiras. Mas aí uma vontade incontrolável cai sobre Maria. Na verdade, era desejo e desejo é a vontade de não se controlar. E a sexta-feira muda o rumo, muda a cor. 

Maria foi rever seu antigo caso. Assim como todas as sextas-feiras, todas as mulheres são um pouco iguais. Todas têm, em algum momento da vida, um caso antigo do passado sempre muito presente. As Marias e as sextas-feiras são mesmo todas iguais... 

Como sempre, ele a pega em sua casa. Como sempre, Maria se atrasa para descer e o faz esperar. Todas as Marias se atrasam para um reencontro de amor. Como sempre, Maria entra no carro dizendo “e aí?” e, como sempre, o caso-presente-do-passado responde “tá tudo bem contigo?”. Maria tem certa dificuldade em ser amorosa e emotiva com ele e no fundo sabe que é uma espécie de autodefesa. Ou não. Sei lá. Todas as Marias, em algum momento, não se entendem muito bem. Eles param para comprar gelo. É costume beberem alguma coisa nos seus reencontros. E Maria gosta da ideia porque está deveras nervosa e pensa que a bebida deixará menos pesada sua alma. Todas as Marias, em algum momento, precisam de um drink bem forte para aguentarem uma emoção idem. Maria olhava disfarçadamente para ele durante o caminho. Fazia uns meses que não o via e queria prestar atenção nele, ver se era o mesmo. Olhava sua roupa (sempre básica),seu cabelo (grisalho), as mãos (tão bonitas). Maria pensava coisas, lembrava coisas e ria de canto. Ele perguntava o que era e Maria dizia que não era nada. Mas era tudo. Um turbilhão de pensamentos e emoções dentro de uma Maria tão pequena. 

Eles chegam no local. Era tarde ainda. O quarto estava claro, claríssimo. Não esperam nada, fazem amor vorazmente, como se fosse a última vez. E de fato era, Maria já sentia. Todas as Marias, em algum momento, sentem essas coisas. Foi rápido. E não foi como era de costume. Maria sentia que tava diferente. Enquanto ele cochilava do seu lado, ela o olhava. Um cinema existia dentro de Maria naquele momento. Um filme saudosista, dramático. Daqueles que todas as Marias choram. E Maria chorou. Chorou olhando pra ele, sem roupa, naquela cama. Chorou de tanta saudade que estava, chorou porque sabia que ele nunca foi dela, chorou porque ela era tão dele, que se desprendia de si mesmo. Chorou pela certeza do fim de algo que nunca efetivamente começou. Chorou pela certeza plena que aquilo tudo iria passar. Chorou porque nunca soube lidar com o fato de querer tanto alguém. Logo Maria, tão desprendida, tão solta, tão marrenta. Maria chorou, porque amor demais sempre acaba transbordando em lágrimas gordas. 

Ela sai pro banheiro para limpar o rosto. Precisava manter sua fama de má. Ele vai fazer os drinks e então conversam por muito tempo. Maria tinha prometido para si mesma que não faria DR’s, que não cobraria nada, que não perguntaria sobre sua namorada atual, que não seria melodramática. Todas as Marias, em algum momento, teimam em fazer promessas que não podem cumprir. Maria sempre achava um jeito de perguntar, nas entrelinhas, o porquê de ele não ter querido tanto ela, como ela o queria. Metia umas roupinhas sujas pra lavar, bem no meio de um riso sobre alguma coisa que debatiam. Maria sabia que ele não era culpado por nada – “mea culpa”. Ele não era de iludir, de fazer promessas. Nem ela era de se iludir. Mas todas as Marias, em algum momento, se perdem de si. Ela alimentou seu amor sozinha. Como só o dono alimenta seu animal de estimação exótico. 

Maria, pela segunda vez, percebe que chegou ao final. Não teve fim ainda, para ela, mas chegou ao final. E aconteceu o que ela não queria – ela chora, sem ligar pra disfarces. Perde a pose de durona. Desmorona. Todas as Marias, em algum momento, sempre soltam a corda do cabo de guerra. Ele não diz nada. Olha pro chão. Maria que o acalma, vejam só – “Não te preocupa, isso é bobagem minha. Vai passar. Nem sei porque tô chorando assim.” E tenta um riso. Em vão. Sua alma estava cinza. Seu coração, uma bola de chumbo. 

Maria joga um pouco de sua ironia sobre o relacionamento dele, como que desdenhasse. Todas as Marias, em algum momento, desfazem da atual, querendo intimamente, seu lugar. Até porque, Maria nem “EX” era. Maria tinha a convicção de que foi um “lance”. E essa dor era escura. E esse contraste era amargo. E essa sinestesia era dura – ele era o amor de Maria. Ela era o quê para ele? Todas as Marias terminam, em algum momento, dando bem mais que o recebido. 

Maria vai vestindo sua roupa e as lágrimas – teimosas- caindo feito cachoeira de mata virgem. Começa a tocar uma música daquelas bem filha da puta, daquelas que arrastam o coração da gente no chão: “I can’t take my eyes off of you...” Ele chega perto dela, fasta o cabelo, beija sua nuca e canta em seu ouvido “I can’t take my eyes off of you...”. Maria fecha os olhos. Todas as Marias, em algum momento, sempre fecham os olhos quando a dor não cabe no peito. Maria acha o momento tristemente lindo. 

Eles vão embora sem falar mais nada. O caminho parece mais longo. Ele pede para ela o convidar para sua formatura e ela acha isso até legalzinho. Quando chegam na porta da casa, eles se olham e se beijam de forma singela, terna. Um selinho demorado, com força. Um beijo de despedida tinha um gosto que Maria não sabia bem explicar. Um gosto de Judas misturado à um gosto de príncipe acordando a princesa. É, a princesa estava mesmo acordando. Se dando conta que nunca deu certo e nunca iria dar. Se dando conta que nunca poderiam mesmo ter tido nada a mais que um “lance” porque, para querer ter algo com uma pessoa, é preciso ADMIRA-LA. É premissa fundamental. E Maria sabia que ele não a admirava o bastante. Maria sabia que eles eram de mundos tão diferentes e distantes. Maria sabia que nada dá certo começando errado. E começou. Ele com uma imagem pré-estabelecida erroneamente sobre ela. Ela carente e com expectativas naquele cara dos seus sonhos. Todas as Marias, em algum momento, caem na real. 

E Maria subiu. E chorou. E se deu conta que era o fim, pela terceira vez naquela sexta-feira. Já era noite, no mundo exterior e no mundo interior de Maria. Maria estava de luto. Luto por ter que desistir do seu amor, seu único amor. E Maria chorou até cair no sono. Todas as Marias, em algum momento sempre choram até dormir e acordam de ressaca. Maria só despertou quando já não era mais sexta-feira. E nada era mais igual. Nem o dia, nem Maria.




                                                                                                    




domingo, 7 de abril de 2013

O mesmo do mesmo

Não sei vocês, mas eu ando com preguiça da maioria das pessoas que conheço por aí, nas baladas. Todas tão iguais. Todas num uniforme, todas com a mesma bebida no copo e com as mesmas ideias na cabeça (o copo,geralmente,está mais cheio).
Todas tem discursos e gestos coreografados e a gente sempre volta pra casa totalmente cheio de sentir vazio. Algumas até chamam a nossa atenção, mas não conseguem nos manter interessados. Muito artificiais, muito rasos, muito clichês. Daí eu parei pra pensar que talvez eu estivesse indo nos lugares errados. Um amigo me disse: "Paty, o caras legais e as minas legais, não estão nessas baladas raladas que todo mundo vai expor sua mesmice. Essas pessoas estão em casa, pensando que nem você."
Eu até concordo com meu amigo, mas se é assim, o que a gente tem que fazer? Ficar esperando Deus mandar cair bem na nossa frente uma pessoa interessante? Ou bater nas portas das pessoas:

- Toc,toc. Ei,tem algum cara legal aí?

Na verdade,é que nem diz Caetano: "tudo é muito mais..." E é vida que segue! Um dia a gente acha, não nossa outra metade,mas um outro inteiro que nos complete. Para isso, é bom deixar a casa (nós) sempre em ordem pras nossas visitas. Deixar os espaços devidamente desocupados e limpos. E um tapetinho de boas-vindas na entrada do coração não é nada mal. Todo mundo gosta de lugar aconchegante, arrumado e quentinho. É em lugares (gente) assim que se faz parada.






sexta-feira, 8 de março de 2013

Ao Dia da Mulher


Eu nasci numa família de mulheres. Uma mãe, dez filhas. Hoje, uma trabalhadora rural aposentada, sete professoras, três estudantes . Mães, esposas, trabalhadoras, visionárias. Lá em casa, desde cedo, eu aprendi que ser mulher é sinônimo de ser FORTE. 

Olhando a História, vendo o quanto a mulher conquistou (à duras , duríssimas penas) e vendo nossa luta ainda cotidiana contra essa opressão enraizada, contra esse machismo inerente, contra essa cultura patriarcal, me encho de orgulho do meu gênero e condição. Somos feitas de lutas...diárias...perenes. 

Diante de tanta batalha, não consigo conceber certas posturas ainda sustentadas pelos homens e pelas próprias mulheres. É mesquinho demais uma mulher brigar em público por causa de um homem. É inadmissível um cara ter a plena certeza que se comprar o carro do ano, vai conseguir qualquer mulher que ele queira. É trágico a mulher ainda educar seus filhos com ideias do tipo: “homem não chora”, “homem não leva desaforo pra casa”, ”homenzinho pode ter mais de uma namorada”. A gente não se atenta que agindo assim, somos vilãs de nós mesmas. A gente não se atenta que nós mesmas a vezes no colocamos na posição de COISA. E quem é coisa tem um dono e quem é dono faz o que quer... 

A carga cultural, religiosa, histórica que carregamos é pesada e ainda muito viva. E como lutar contra a opressão, se nós mesmos somos machistas em muitos casos? Quando se julga uma outra mulher pelas roupas que ela veste ou pelo número de caras que ela foi pra cama, estamos fazendo apologia ao machismo, à discriminação, à coisificação que tanto somos vítimas todos os dias. 

Que esse 8 de março seja dia de rever conceitos, reformar valores, reinventar posturas. Que não seja mais um dia de manutenção de ideologias arcaicas, mas de esclarecimento. Talvez esteja sendo utópica, mas utopia é como uma ilha quando se está perdido no meio do mar – ela nos nos incentiva a não desistir. 

Aqui minha reverência a todas as mulheres em suas singularidades. Da quebradeira de coco do interior do Maranhão até a presidentA, chefA maior de uma nação. 

Parabéns Mulheres! Nossa essência é luta! 



Créditos: à Lara Spognal pela inspiração, às mulheres da Família Carlos pela motivação.